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A liberdade e a servidão como faces da mesma moeda na sociedade neoliberal
Por Maria de Fátima Felix Rosar
Publicada em 13/09/2007

Há muito os educadores aprenderam com grandes filósofos do século XIX e do século XX, tais como Marx e Gramsci, que para compreendermos a sociedade em que vivemos é necessário apreender as suas múltiplas dimensões, fazendo assim um exercício diário de leitura profunda do mundo, para ampliarmos a nossa capacidade de reflexão e de análise crítica.

Poder-se-ia afirmar que essa expansão de um pensamento crítico, na área da educação no Brasil, ocorreu de forma efetiva, durante os anos 80, o que nos possibilitou entender a dialética produzida na sociedade capitalista, em que se convive, predominantemente, com as contradições de um processo de produção de idéias e de bens materiais, que favorece a maximização de empreendimentos, enquanto se ampliam os mecanismos de aprisionamento das vontades, desejos e projetos de libertação dos seres humanos, levando-os à condição de se tornarem consumíveis como todos os demais recursos utilizados no processo de produção capitalista.

Na atual conjuntura mundial, onde se constata a predominância quase plena do capitalismo, o capital humano, os recursos humanos são considerados produtos necessários à produção, que leva, em última instância, ao consumo dos corpos e das mentes. O consumo dos corpos é muito mais visível e palpável no caso dos operários, mas o consumo das mentes ocorre também com os operários e os demais trabalhadores.

Qual a lógica capitalista vigorosamente fortalecida na sociedade liberal? A redução da capacidade de reflexão crítica, de modo que se possa reduzir o exercício da razão à dimensão meramente instrumental e pragmática. As balizas da sociedade pós-moderna não são mais os valores simbólicos transcendentes, mas o valor monetário da mercadoria. A diluição dos valores ou a dessimbolização do mundo do ponto de vista moral e transcendental, coloca como modelo de novo indivíduo um sujeito dócil, que não se opõe para não ser rejeitado pelo sistema, mas integrado, sem restrições.

A ideologia do capitalismo, em sua versão neoliberal ou ultraliberal, prega a substituição do sujeito crítico pelo sujeito que convém ao mercado. E o que convém ao mercado é um sujeito que possa ser equivalente a outro, portanto, que tem o mesmo preço e que não impõe ao mercado valores como ética e dignidade. A dignidade não tem preço e não tem equivalente, por isso é que garante a autonomia do sujeito crítico, que não serve para a circulação no mercado.

Segundo Dufour, filósofo e psicanalista da atualidade, autor da obra “A arte de reduzir as cabeças”,1 a dessimbolização produz um “sujeito precário, acrítico e psicotizante”, isto quer dizer, um sujeito aberto às flutuações identitárias e disponível para todas as conexões mercadológicas. (Dufour, 2005, 19-20).
Em grandes linhas, pode-se caracterizar o quadro da sociedade neoliberal como aquele em que foram desacreditadas as análises resultantes da aplicação das categorias do materialismo histórico-dialético, fazendo desaparecer as resistências dos movimentos de vanguarda que lutaram nos séculos XIX e XX pela ultrapassagem do capitalismo.

Ao contrário daquele cenário foram sendo globalizados os padrões da sociabilidade ajustada aos ditames do capitalismo. Como afirma Dufour, “o desenvolvimento do individualismo, a diminuição do papel do Estado, a supremacia progressiva da mercadoria em relação a qualquer outra consideração, o reinado do dinheiro, a sucessiva transformação da cultura, a massificação dos modos de vida, combinando com a individualização e a exibição das aparências, o achatamento da história na imediatez dos acontecimentos e na instantaneidade informacional, o importante lugar ocupado pelas tecnologias muito poderosas e com freqüência incontroladas, a ampliação da duração de vida e a demanda insaciável de plena saúde pérpetua, a desinstitucionalização da família, as interrogações múltiplas sobre a identidade sexual, as interrogações sobre a identidade humana (fala-se, por exemplo, hoje, de uma “personalidade animal”) a evitação do conflito e a desafetação progressiva em relação ao político, a transformação do direito em um juridismo procedimental, a publicização do espaço privado (que se pense na onda dos webcams), a privatização do domínio público... Todos esses traços devem ser tomados como sintomas significativos dessa mutação atual na modernidade.” (Dufour, 2005, p.25)

Essas evidências de uma prática libertária garantida amplamente a todos os indivíduos na sociedade atual, embora tenham um efeito ideológico poderoso sobre as novas gerações, nos sugere a urgência de uma reflexão crítica que nos permita analisar as conseqüências reais da perda de valores e de símbolos que constituíram as referências fundamentais dos projetos educativos da modernidade. Em lugar da libertação, o que o capitalismo oferece é o aprisionamento das mentes e dos espíritos aos seus ideais, os ideais de consumo.

O ideal de uma sociedade justa e igualitária, em que fosse assegurado a todos os sujeitos a condição de desenvolvimento autônomo e digno, não pode se apresentar para os educadores, como sendo anacrônico. O que se construiu, desde o iluminismo revolucionário, até a elaboração das análises marxistas foi a busca de sentido, para a construção de um projeto de desenvolvimento humano, sem exclusão de nenhum indivíduo. É justamente nesse núcleo de criação de novas possibilidades que o capitalismo investe de forma devastadora, para romper as relações solidárias estabelecidas, para criar uma dependência simbólica dos homens em relação ao sistema capitalista, portanto, dissolvendo a simbolização da utopia, como possibilidade histórica viável.

Tudo que se refere a princípios e valores que não se pode converter em mercadoria e em dinheiro é considerado superado. Por isso, Dufour apresenta três conseqüências do neoliberalismo que necessitamos combater de forma enfática: a dessimbolização venal, a dessimbolização geracional e a dessimbolização niilista.

A dessimbolização venal representa a circulação do dinheiro como valor neutro, portanto, como uma forma de realização da liquidez, sem que importe a questão de sua origem. Isto quer dizer, sem que se pergunte se a obtenção do dinheiro ocorreu de forma lícita ou ilícita, presume-se que é melhor tê-lo, do que não tê-lo.

A dessimbolização geracional significa a desinstitucionalização da família e da escola, como espaço de educação das novas gerações. São os meios de comunicação de massa que prescrevem as regras de conduta, tornando inócua a atuação de pais e professores, que perderam a condição de transmissores de um legado cultural que haviam acumulado com sua própria experiência de vida. Já não há diferenças entre pais e filhos, professores e alunos, porque na sociedade neoliberal todos se igualam na condição de consumidores. A negação da autoridade ocorre com a diluição dos princípios e dos valores considerados ultrapassados.

A dessimbolização niilista exprime a perda de sentido das lutas com base nas oposições de classe social. Como os jovens constituem grandes contingentes de excluídos de qualquer atividade produtiva e social, mas não compreendem a origem da situação histórica em que foram inseridos, sua violência e ódio são dirigidos à busca de realização de simples objetos e não de ideais. O que pode-se apontar como resultado da falta de um projeto revolucionário, é o enfraquecimento das reações aos governos e às suas políticas. Numa sociedade onde tudo é permitido, a dominação do capital é dissimulada, portanto, não se realizam lutas pela superação do capitalismo.

Diante dessas três formas de dessimbolização, resta-nos a certeza da necessidade de se continuar ampliando as possibilidades da resistência, como única alternativa à decretação da sociedade da fabricação do gozo, mesmo sem desejo, apenas como realização do consumo em todas as formas de ação humana.

Nessa perspectiva, os educadores poderiam resgatar sua capacidade de persuadir, de argumentar, de analisar e refletir criticamente para recolocar no cotidiano de sua prática pedagógica o ideal de libertação humana, ainda atual, embora considerado ultrapassado pelas novas teorias educacionais, que pregam, sobretudo, o ajuste dos indivíduos às necessidades do mercado, tornando-o o senhor de todos os seres, tranformando-os em seus dóceis servos, quando poderemos ser arautos de uma nova utopia no sentido da emancipação humana, na medida em que conseguirmos desvelar os mecanismos de subsunção dos sujeitos à ordem estabelecida pelo capitalismo.
A liberdade e a servidao como faces da mesma moeda na sociedade neoliberal.pdf

 
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