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FUTEBOL FEMININO – NA PERSPECTIVA DE UMA JOVEM MULHER QUE BRINCA COM A BOLA
Por Diane Pereira Sousa
Publicada em 17/05/2011

TUDO COMEÇOU... NA BAIXADA MARANHENSE

Foto aérea da Baixada Maranhense – TR Campos e Lagos

OS PRIMEIROS CHUTES.....

Comecei a jogar futebol com nove anos!

O primeiro contato com a bola aconteceu na rua em frente à minha casa, com meus primos e amigos da escola.

O jogo funcionava de forma bem simples. Naquele tempo, há dez anos, tínhamos um espaço de rua ímpar na vida de todos nós. Os nossos pais diziam ser a rua a “nossa casa''. Nela tudo acontecia!

Era lá onde socializávamos, informalmente, as diversas vivências que tínhamos, onde podíamos estar livres para sorrir sem medo, fazer novos amigos que vinham de outros bairros, onde os sonhos se construíam e, todos, pensávamos em um futuro juntos pra sempre. Infelizmente, hoje esse espaço vem perdendo sua essência.

No final da tarde, tipo dezesseis horas, começávamos a pelada. Quatro tijolos emprestados de vizinhos ou encontrados pelos cantos da rua e uma bola. A bola era emprestada, ou alguém, entre nós, tinha ganho uma bola de presente no começo do mês, que era quando nossos pais recebiam dinheiro. Às vezes, entrava em campo a famosa “vaquinha”! Vaquinha era o nome dado a arrecadação que fazíamos de nossos centavos. Era a cooperação entre amigos, que pra nós era uma grande saída. Tudo valia: dez centavos, cinqüenta centavos... até quando juntávamos três reais, dinheiro suficiente para comprarmos a bola mais barata que tinha no comércio local.

Essa bola de plástico era chamada “pico de jaca’. Comprar a bola, contudo, era apenas o começo da história, pois por ser a mais barata, logo não servia para o jogo. Quando um chute a levava até o arame farpado do vizinho era furo na hora. Um chutaço forte rasgava-a ao meio. Então, tínhamos que cozinhar literalmente a bola, no fogo, para que ela ficasse mais dura e resistente. Daí ela murchava e nos rendia algumas peladas por uma ou duas semanas. Com a bola cozida era só felicidade! Todo mundo na rua montando seus times, pedindo barreira, se desafiando...

Nessa brincadeira íamos até as dezessete horas. Nesse horário, nossos pais nos chamavam para tomarmos banho e jantarmos. Lembro com muito carinho desse tempo!

AS PRIMERIAS BARREIRAS....
Elas começam dentro de casa, na maioria das vezes, no meu caso pessoal, na família. Havia alguns parentes que me condenavam por eu estar praticando futebol. Eu tinha bonecas e brincava com as minhas amigas de casinha, mas lembro que nós também gostávamos de jogar futebol e, por causa desse gosto, rolava muita chantagem por parte deles para não irmos jogar e, por nossa parte, para garantirmos que estivéssemos nisso, que para nós era uma brincadeira.
Assim sendo, por estar nos jogos, fui chamada de “maria machinho”, entre outros apelidos. Isso me incomodava um pouco. Eu queria jogar, mas muitas vezes recuava ou mesmo não podia e acabava me conformando. Penso que a família deve apoiar as crianças a estarem, se for da vontade delas, nessas práticas educativas. Eu gosto de futebol porque eu me liberto quando o pratico, mas o reconhecimento de que nós somos capazes, não só nessa pratica como em outras, ainda é o que falta. Digo isso porque, veja bem, é necessário um todo para essa construção social de pessoas iguais do ponto de vista de oportunidades e conhecimentos.
Que somos capazes, isso não há duvida, é só olhar para o Brasil e verificaremos o espaço que as mulheres têm conquistado ao longo de todos esses anos, sobretudo nas duas últimas décadas. Quem diria que teríamos uma mulher presidenta, por exemplo. E temos a Dilma! Na capa da revista época da segunda semana de maio, está a foto de Luiza, uma das principais empresárias brasileiras de comercio de varejo, concorre de igual para igual com os mais tradicionais grupos empresariais nesse ramo. E ela é a cabeça revelada do negócio. Digo a cabeça revelada, porque em muitos casos, a mulher se destaca, mas fica nos bastidores, nunca aparece. Vamos a outro exemplo, bem longe da Baixada e do Brasil, da parte de cima da linha do Equador.... mais próximo de vocês: E pensar que Nannerl (Maria Anna Walburga Ignatia Mozart) poderia ser tão famosa quanto o irmão, mas porque não era permitido às mulheres se destacarem, ela somente é conhecida por quem estuda a biografia do músico.
O mesmo ocorreu historicamente no Brasil, com o futebol. Quantas Martas poderiam ter sido reveladas! Quantas mulheres poderiam ter sido mais felizes e menos reprimidas!
UMA BOLA, UM PEDAÇO DE CHÃO E OS PRIMEIROS MOMENTOS DE MENINOS COM MENINAS...

Os meninos só queriam meninas nos times deles após muita bajulação e se elas soubessem jogar, caso contrario, nem em sonho eles permitiriam, mas nem isso importava, pois continuávamos tentando porque o que nós queríamos era jogar. No meu caso, eu “’sabia jogar’’, mas isso não facilitava a minha vida porque não havia reservas e tinha muitos homens pleiteando vagas.

O jogo era corrido, sem mudanças no elenco, e se nós queríamos estar nele (quando conseguíamos entrar) deveríamos assumir as conseqüências, ou seja, os chutes eram fortes, não respeitavam fragilidades, e aos poucos fomos assimilando e absorvendo essa forma masculina de encarar a partida e a pelada ia prosseguindo.

Tínhamos muitos torneios na escola, mas todos voltados para homens. Nenhum era planejado para as mulheres. Quando aconteciam oportunidades para as meninas (o que era bastante raro) faltavam mulheres para o jogo porque não havia a tradição da prática. Nesses casos, os meninos eram convidados, sobretudo, para ficarem no gol. Mas, ai eles passavam a se sentir os donos do time, o que era imensamente irritante.

Tudo isso está enraizado nessa cultura brasileira em que ainda se vê, por exemplo, a mulher como muito frágil, pessoa que chora por qualquer coisa, que não tem força pra isso, não pode fazer aquilo. Mas, de verdade, ninguém nunca perguntou pra gente se podíamos ou não. O que podemos e queremos. Apenas decidiram estabelecer em nossa sociedade leis, costumes e tradições que dizem o que se pode ou não fazer.

Apesar de todas essas barreiras o que fica é a lembrança de que éramos muito felizes, e foi na terra, no asfalto, na grama, na piçarra, na lama e nos campos inundados da Baixada Maranhense, nosso querido pantanal, que consegui chutar várias vezes todo sentimento que tinha dentro de mim. E o meu chute foi ficando firme e forte.

Foi na cidade de São Bento, que eu comecei com os meus amigos a descobrir que uma bola e um pedacinho de chão te trazem diversas possibilidades para construir sonhos e ser feliz. Para se emancipar.

Hoje percebo que o jogo entre meninos e meninas, voltado para performance, tenta igualá-los como se não houvesse diferenças biológicas: o chute, o estilo....

Quando se pensa o jogo a partir da metodologia da mediação do futebol de rua, com os três tempos: 1º tempo dos combinados, 2º tempo dos jogos, 3º tempo da avaliação, meninos e meninas juntos não medem suas forças, mas compartilham solidariamente de uma bola que corre conduzida por todos nós. Se um menino tem um chute forte, uma menina pode também tê-lo, mas também pode ter uma inteligência mais aguçada... e vice versa. Ou seja, as capacidades somadas se igualam. É a diversidade sem diferenças que entra em campo.

AS CHANCES DE JOGAR EM GRANDES TIMES....
Com o passar do tempo fui tomando outros rumos, quer dizer, indo para outros espaços de jogos, já estava jogando em ginásios com bola legal, com muitas meninas sem precisar de meninos no gol. Comecei então a participar de torneios interclasses, de jogos com outras escolas, de eventos municipais.

Todas as quintas, os sábados e domingos eram horários sagrados para eu e outras garotas estarmos no ginásio de um bairro da minha cidade. Nós atraíamos um público significativo, que gostava de ver a gente jogando, mas também eram jogaços. Digo isso sem nenhuma modéstia!

Em certo dia desses de jogos, depois de ter feito umas três partidas, uma pessoa se dirigiu para mim e perguntou se eu não gostaria de jogar em outros lugares do Brasil. Naquele momento eu sorri, mas ele estava falando sério, só que tinha um problema: antes eu tinha esse desejo, naquele momento não o mais!

A partir dessa situação outras questões ficaram martelando na minha cabeça: como ajudar a minha família? O que fazer? Obviamente, precisava de algum modo ajudá-los, mas sem me prejudicar e nem me violentar. Então, eu decidi não ir para times profissionais e não me arrependo, porque comecei a perceber que praticar futebol é um grande prazer, uma paixão! Uma bela jogada me encanta, assim como tudo que podemos fazer com a bola, mas a competição por si só, a performance por si só, e a minha vida na mão de empresários não me animam. Se por um lado jogar liberta, ser de um “dono” aprisiona muito mais.

E passei a pensar que a “competição” esportiva só vale a pena quando se transforma em única forma de disputa entre os homens e mulheres, como forma de evitar que em disputas se utilizem armas de fogo. Se dois países querem medir suas forças, então vão para um campo de futebol. Briguem e brinquem, sem provocar nenhuma morte. Depois saiam abraçados rumo aos vestiários. Tomem banho e sigam para suas casas ao encontro de suas famílias.

Quero trabalhar pelo futebol, pela emancipação das mulheres brasileiras que querem praticar esportes, continuar a jogar na rua, na quadra, nos campos, participar de alguns festivais e ter uma vida que me dê prazer de viver, em sintonia com os meus sonhos, respeitada a minha privacidade, compartilhando cotidianos com a minha família, e contribuindo socialmente a partir do meu trabalho.

O FUTEBOL DE RUA E O CIP JOVEM CIDADÃO
Em 2006, em dezembro, eu tive meu primeiro contato com o CIP Jovem Cidadão. Não foi a principio com futebol de rua, mas foi com música – outra grande paixão. Tudo ocorreu no mesmo período que a organização recebeu 20 executivos do staff de um dos seus apoiadores, a Fundação Kellogg, na Baixada Maranhense. Eles estavam em minha cidade e eu participei daquela movimentação com os jovens do Centro de Ensino Médio e Educação Profissional (CEMP), onde estudava.

Na época, também fui convidada pelas profissionais de arte e cultura do Instituto Formação para tocar com elas e com os jovens dessa área, que participavam do Fórum da Juventude de minha cidade. Tinha então treze anos! Foram muitas informações que me passavam sobre esse projeto e achei tudo muito interessante, apesar de me atordoar um pouco com tantos detalhes e ações simultâneas.
Nesse mesmo ano, jovens da Baixada Maranhense tinham ido para a copa da Alemanha, pelo CIP Jovem Cidadão. Um deles, de São Bento, ao retornar mobilizou jovens da cidade para socializar conhecimentos aprendidos e realizar uma oficina de futebol de rua. Ele fazia parte da área de educação física esporte e lazer do Fórum da Juventude. Eu disse: oba, tô lá! Afinal, era futebol.

Fui para a oficina com muitos amigos e amigas do bairro onde moro. Quando eu cheguei levei um susto, eles usavam uma metodologia estranha: três tempos de jogo? Meninos e meninas no mesmo jogo, por mais de dez minutos, sem haver desrespeito e violência? Refletir juntos num terceiro tempo? Acordos de convivência? Eu achei que isso não ia dar certo.

Fiquei observando e aos poucos fui entendendo, praticando e logo entrei no Fórum da Juventude e nas demais atividades do CIP Jovem Cidadão.

Foi então que tive a oportunidade de ir jogar fora, eu já estava no Fórum e não era mais a mesma garota, não mesmo! Entrei com treze anos, hoje estou com dezenove e posso dizer que não é fácil implantar no Brasil a idéia do jogo como lazer e não como competição apenas, mas é possível!

O futebol de rua me mostrou outras possibilidades de conviver com as pessoas, de respeitá-las, entendê-las, e de me entender. Eu me humanizo a cada oficina que realizo com as crianças, adolescentes e jovens. Eles saem da perplexidade diante do novo para a alegria por vivenciar uma prática solidária num esporte em que sempre se ouviu falar que ganha quem é mais forte. De repente, com essa metodologia inclusiva, ganha quem é mais gentil e sabe respeitar a todos em suas diversidades. A bola lançada no chão, vai de pé em pé construindo redes de solidariedade, de emancipação e de combate a preconceitos.

Várias crianças, adolescentes e jovens com quem trabalho me relatam que nunca haviam tocado em uma bola por não saberem jogar, e que através do futebol de rua, isso foi possível. Isso só corrobora que o importante é cada um com suas limitações ou não ter oportunidades. Eu sou uma baixadeira e assim com muitos baixadeiros nós só precisávamos de oportunidades e isso nos foi dado.

Desde 2003, na Baixada Maranhense, muitos jovens tiveram a oportunidade de compartilhar e trocar experiências e conhecimentos com jovens de outros países. Jovens do Brasil puderam conhecer e abraçar a região onde moram e buscar desenvolvê-la, com o objetivo de transformá-la numa sociedade constituída de cidadãos iguais, uma região reconstruída a partir dos sonhos de “Embaixadores da Baixada” em diferentes áreas: na comunicação, na arte, no esporte. Tudo isso porque quem vê mais longe, chega aonde quer. E quebrar preconceitos é sempre uma atitude que emancipa todos os lados.

E, para finalizar, gostaria de fazer uma reflexão com todos vocês. Quem aqui não consegue ver a música como uma atividade que requer sensibilidade e que tantos homens como mulheres podem praticar e, ao praticarem, nos possibilitam com as notas musicais ecoadas a nossa aproximação com o que há de mais sublime no mundo! A música nos eleva. Mas, na época de 1751 a 1829, período da vida de Nannerl, a sociedade européia onde ela vivia poderia considerá-la também uma “maria machinho”, como a sociedade brasileira considera, ainda em pleno século XXI (com exceção), as meninas que querem jogar futebol. Afinal, a bola correndo na lama ou na grama para nossos olhos, é como nota musical para nossos ouvidos. Para o apaixonado, ambos nos elevam e libertam.

Penso ser necessário que no combate ao preconceito a sociedade avance numa velocidade ainda maior que na área das novas tecnologias. Quem sabe, o uso dessas ferramentas tecnológicas, somadas à prática do futebol não nos ajudem a alcançar o sonho da emancipação das mulheres, visto que somente assim teremos um mundo mais humanizado e viável para as futuras gerações. Cabe a nós fazermos nossa parte.

 
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